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A mostrar mensagens de 2022

Paraíso perdido

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Este foi o ano em que perdi a minha fé no Deus que me ensinaram. Tranvestido de ritos, imóvel e complacente aos túmulos caiados. Nos últimos anos senti culpa por ir esquecendo todos os hábitos, camadas de pequenos dogmas. Cristais suspensos na caverna.  Este foi o ano em que descobri outra divindade cósmica, elementar, dinâmica que habita em cada organismo vivo. Não tem ritos que não sejam mergulhar para dentro e estimar essa partícula que brilha. eternamente. 

Devagar

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 Infinito, vai devagar.  Vamos conseguindo comunicar, só agora, devagar. De ti para mim, nesta relação somos velhos aliados, mas no outro sentido, de mim para ti, só agora comecei a aprender a falar.  Por não dizer nada, não fiquei muda. As flores conseguem florir nas mais pequenas nesgas, desde que haja um pouco de sol.  "um pouco mais de sol, eu era brasa/ um pouco mais de azul e eu era além" Bastava um pouco mais, mas não veio. Tenho feito o luto das expetativas e uma festa das marcas da vida, do testemunho dos ancestrais.  Há muitos anos eu queria que tudo fosse depressa, preferia qualquer mudança e eu hoje sei porquê. Entendo a urgência em sair de um buraco onde nos é atirado um desperdício, vestigio,  para a sobrevivência básica. Nas células vive essa urgência de sobreviver hoje e, quem sabe, amanhã. Medo de perder até o buraco de onde se acabou de sair, rastejar para fora já com medo de cair noutro buraco ainda maior, ainda mais negro, mais profundo....

Atestado

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 Sob a superfície jazem as esperanças da vida física e, à distância, sorriem as visões. Serão elas a minha verdadeira vida?A passagem do tempo  transformou o impacto do espírito em calo, peles secas, banalmente aceites.  O som da chuva é uma âncora, conforta.  Todos os sonhos sempre foram o desejo de abandonar o incerto, o invisível, mas sem ele, quem sou eu?  Não há medicamentos para parar com estas questões. Nunca consumi drogas, tenho a convicção que nada será mais psicadélico do que o meu estado normal.  

Sapatos enterrados

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Os sapatos eram novos, imaculados, brancos, descalcei-os lentamente para entrar no templo. Arrumei-os do lado direito. Entrei sem sentir os pés no chão e a cabeça já separada do corpo, que visto de cima parece feito de pequenos triângulos e quadrados. As ideias dançam num céu de asas, fogo, sementes. Não há tempo nem espaço,  só o ser. Quando saí, ainda com a garganta a sentir a estranheza de saliva, os olhos a luz baça, os pulmões o ar dos eucaliptos, os sapatos não estavam ali. Desapareceram.  Como voltar pelas pedras? Procurei os sapatos pelo jardim, o corpo foi-se tornando mais real, a cabeça voltou ao lugar, as emoções subiram do umbigo até ao centro dos olhos.  Havia um homem baixo e sólido que tratava do jardim. Perguntei lhe se tinha visto uns sapatos brancos, novos, brilhantes, à porta do templo. Sorriu para mim ou seria através de mim? E respondeu que uma mulher os enterrou.  Lancei-me para onde a terra tinha sido remexida e com as unhas e com a raiva renas...

Simaeta e a doença ardente

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 Augusta Selene foi testemunha da doença ardente de Simaeta.  A feiticeira não alcança a magia. A feiticeira é a magia. Todas as partículas projetam-se nela, de dentro para fora, caleidoscópio que gira.  Simaeta movida pela obsessão, pelo ciume e amor ferido, faz o ritual sabendo que Delfis não vai voltar nunca mais. Simaeta manipula os objetos, mata pequenos animais, um lagarto, um pássaro, como uma desesperada e inútil dança infantil, a tentar recuperar uma ordem no caos.  Não, Delfis nunca regressará, nem a Selene nem mesmo Apolo ou Afrodite conseguem fazer brotar num coração o amor, porque não é possível falsificar a chama. O feitiço foi inútil e Simaeta entende que Delfis não pode voltar porque nenhum encantamento pode transformar um homem.  O único amor a recuperar é o seu, a sua dignidade perdida. Unificar as suas partes e usar a Natureza para girar novamente Tudo pode mudar, amantes perdidos, cidades que se queimam, famílias que se apartam, beleza esfuma...

A aventura de Alix -1

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Quando Alix juntou as suas roupas teve uma visão. Viu a casa na floresta, uma cabana abandonada, com uma cadeira, um velho tacho esquecido, um pedaço de tecido a dividir o pequeno espaço. Seria esse o lugar onde se encaminhavam. Sebastian era um homem sem planos, só pensava no momento da fuga. Juntou armas e serrou os dentes, murmurando as orações como talimãs.  Alix estava assustada, sabia que este dia teria ressonância eterna, não apenas na sua existência atual, mas nas próximas. Ia fugir da família para viver com um estranho, um estranho silencioso com quem trocou algumas palavras. O que não podia explicar a ninguém é que Sebastian era o veículo para ela chegar à velha cabana abandonada. Para escapar à vida que lhe estava reservada, para começar a estudar e a compreender o mundo. O caminho de Alix é feito sozinha, com a chama sagrada ardente nos olhos e no peito. Já viu num sonho a morte de Sebastian, o sangue a jorrar pela garganta, de olhos abertos e as mãos suplicantes. Na ho...

As feiticeiras. de Teócrito de Siracusa

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  Hécate, Selena e Afrodite já esperam as palavras da iniciada Simaeta.  Nas suas mãos trémulas está o papiro e ao lado a cera, o bronze, o fogo, as folhas de louro, a cevada, um fragmento do manto de Delfis.  Através de si a serva Testyle acompanha-a. Simaeta repete o encantamento nove vezes. Teme Hécate, mas sabe que precisa de toda a ajuda para enfrentar o abandono de Delfis. Quando o amor falhar, quando a ordem esperada falha, recorre ao sagrado e, assim, ele há de voltar. Há doze dias que não o vê. Por amor e por desespero usa a magia que aprendeu com outras mulheres, mulheres que muito amam e a quem os homens falham. Simaeta sente raiva por Delfis e as suas palavras têm o tom do desespero, procura na divina Lua o remédio para a sua dor. 

A canção da raposa vermelha

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  A raposa vermelha bebe água no rio,  Atenta ao cair da folha,  Ao deslizar da gota do orvalho. Tudo conhece na floresta, Atenta ao cair dos frutos, Ao alimentar os seus filhos.  Raposa da cauda de fogo, Atenta ao cair da noite, Ao guardar o feminino espírito .  Raposa dos olhos de mel, Atenta ao som dos teus passos, Ao amar do teu coração. 

Sebastian e Alix: os mistérios da demanda

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A demanda tem a sua ordem. Para a alma humana, os seus caminhos são misteriosos, perseguindo símbolos para a compreensão do universo.  Sebastian queria ser um homem bom e devotava-se às regras da religião que conhecia.  A sua demanda era a perfeição e debatia-se com os conflitos que essa religião impunha: o desejo de poder e a humildade, o amor e a castidade, a sabedoria e a dúvida.  Sebastian rezava todas as noites e antes de dormir pedia para encontrar um sentido maior para iluminar o seu caminho. Ele desconhecia que rezava para si mesmo e para o divino que continha a sua alma. O sentido que buscava estava ali: ao alcance do seu coração, que vibrava eternamente. A sua demanda era o Amor, todos os outros valores eram apenas distrações para a sua velha alma. Sebastian não procurava amar, por medo, e, sobretudo, por acreditar no valor da castidade como forma de purificação. Ao mesmo tempo não conseguia acreditar que a vida e todas as suas formas fossem erradas e que a exis...

Delfos e a pitonisa

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  Vive e sê feliz.  Agradece. Conhece-te a ti próprio e conhece o universo e Deus, que és tu.  Respeita-te.  Escuta e observa. Procura a justiça e escolhe a bondade. Ama a Natureza. Diz a verdade.  Não percas tempo. Transmuta cinza e lama em chama e barro.  Usa a força do coração para curar com as mãos.  Procura a paz. Ama o saber. Aprecia a Arte.  Cultiva a amizade. Admira o oráculo. Na juventude sê disciplinado, na idade adulta sê honesto e na velhice sê sensível.  Usa os teus dons para edificar. Vive sem culpa. Tudo está certo. Aceita o teu destino.  Morre sem sofrer. 

Prótea

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  Estão no cesto cortadas várias flores, ofereces-me uma. Hesito, não sei se é pelo tamanho e aspeto daquela flor, aparentemente espinhosa sem o ser, que parece seca sem o ser, vermelha ou rosa ou tudo ao mesmo tempo. Não, havia qualquer coisa a mais no teu sorriso, um sorriso muito mais intenso do que a boca humana consegue suportar. Não sei se é desconfiança ou apenas medo. Se fosse há uns anos teria fugido, mesmo num contexto de sonho ou viagem astral, teria sempre fugido.  Pensei que tinha de esticar o braço para o teu, que continuava esticado à espera do meu gesto. Não olhava para a flor, olhava para os dentes. Não percebia porque é que flor me era oferecida e, sobretudo, qual o motivo de um sorriso que não esmorece, apesar de tanta demora minha. Não és humana, és tão estranha como esta flor. És fora do tempo e do espaço. Receio-te por seres uma espécie de bruxa, de mendiga, de cigana, baixa, de lenço na cabeça, uma avó calorosa e sorridente. Antecipo dor. Estiquei a mão ...

Luna Mater

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  Não sei como sei, mas sei.  Podia tentar explicar por palavras, e cada palavra cria uma nova realidade, já não é a primeira, surgem em múltiplos.  Na noite há o brilho da lua. Transmuta todos os dias, mágico indício dos ciclos dos seres.  Durante o dia lá está ela, velada, como uma mãe intensa, emotiva, que nos fala sem a sua presença, sem usar as palavras.  É minha mãe. Madrinha, irmã, confidente, testemunha, próxima, aqui, dentro das águas, dentro dos sonhos. Longe no céu é deusa, desperta o amor e a loucura. 

A sacerdotisa

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  Ela espera, paciente, ouvir e entender. Há dia em que se senta e espera. Noutros dias procura nos livros, na natureza e quando fecha os olhos vê, ouve e entende. Também há dias em que nada acontece, nem dentro nem fora. Só espera.  Há o altar, as ervas, os frascos, a varinha. Da vontade nasce a magia, mais conhecida como sabedoria.

Crise ou as areias do deserto

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 A visão desloca-se do ponto microscópico, ao centro. Avança e distancia-se, num movimento da terra para o céu, quem sabe, do purgatório para o universo.  Quando se fecha os olhos vê-se melhor. Em vez de pernas e braços há asas. Em vez de crise, guerra, solidão e dor há as areias do deserto que se deslocam através do vento. Acaso ou perfeição da natureza, fertilizam os campos.  As lágrimas também podem ser fermento. O espírito tem tantas moradas e esta, que parece estar em crise, sob a constante capa da vulnerabilidade, está a ganhar uma aparência de chamas, mutando num salto que estremece. 

O mágico

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No princípio havia a palavra e dela nasceu a luz e a treva. E ambas eram boas. Houve uma altura em que Simão era apenas o mágico. Fazia desaparecer moedas, maçãs e pequenos objetos pelas janelas abertas.   Foi nessa altura que reparou nele a grande benfeitora. Assim lhe chamavam por dar pratos de comida e estudos a rapazinhos bonitos e bem comportados. Acontece que Simão era apenas bonito, uns olhos azuis claros, invulgarmente claros, num mar de crianças tisnadas, com olhos e pestanas de carvão. A benfeitora parou por segundos, incrédula, por ver aquela criança tão loira, de olhos tão azuis, qual personificação de um príncipe perdido. Simão dizia sempre que um olho era azul e o outro verde e o fixassem durante muito tempo ficavam ambos verdes. Era mentira. Como de resto quase tudo sobre si era mentira. Vivia com uma tia, exasperada por ter de o alimentar e criar, juntamente com os seus nove filhos esfomeados. Simão tinha-lhe ódio e era frequente deitar-lhe nas panelas aranhas e l...