Prótea

 






Estão no cesto cortadas várias flores, ofereces-me uma. Hesito, não sei se é pelo tamanho e aspeto daquela flor, aparentemente espinhosa sem o ser, que parece seca sem o ser, vermelha ou rosa ou tudo ao mesmo tempo. Não, havia qualquer coisa a mais no teu sorriso, um sorriso muito mais intenso do que a boca humana consegue suportar. Não sei se é desconfiança ou apenas medo. Se fosse há uns anos teria fugido, mesmo num contexto de sonho ou viagem astral, teria sempre fugido. 

Pensei que tinha de esticar o braço para o teu, que continuava esticado à espera do meu gesto. Não olhava para a flor, olhava para os dentes. Não percebia porque é que flor me era oferecida e, sobretudo, qual o motivo de um sorriso que não esmorece, apesar de tanta demora minha.

Não és humana, és tão estranha como esta flor. És fora do tempo e do espaço.

Receio-te por seres uma espécie de bruxa, de mendiga, de cigana, baixa, de lenço na cabeça, uma avó calorosa e sorridente. Antecipo dor.

Estiquei a mão e agora tudo desapareceu. Todas as particulas do meu corpo se separaram e ficaram a brilhar. Observo tudo de fora, a flor ao centro e à sua volta todos os meus fragmentos dançam no ar. 

Lentamente voltam a unir-se e a separar-se, a unir e a separar-se. Sinto na ponta dos dedos as pétalas que não são espinhos e não magoam. 

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