Sapatos enterrados
Os sapatos eram novos, imaculados, brancos, descalcei-os lentamente para entrar no templo. Arrumei-os do lado direito. Entrei sem sentir os pés no chão e a cabeça já separada do corpo, que visto de cima parece feito de pequenos triângulos e quadrados. As ideias dançam num céu de asas, fogo, sementes. Não há tempo nem espaço, só o ser. Quando saí, ainda com a garganta a sentir a estranheza de saliva, os olhos a luz baça, os pulmões o ar dos eucaliptos, os sapatos não estavam ali. Desapareceram. Como voltar pelas pedras? Procurei os sapatos pelo jardim, o corpo foi-se tornando mais real, a cabeça voltou ao lugar, as emoções subiram do umbigo até ao centro dos olhos. Havia um homem baixo e sólido que tratava do jardim. Perguntei lhe se tinha visto uns sapatos brancos, novos, brilhantes, à porta do templo. Sorriu para mim ou seria através de mim? E respondeu que uma mulher os enterrou. Lancei-me para onde a terra tinha sido remexida e com as unhas e com a raiva renas...