Sebastian e Alix: os mistérios da demanda
A demanda tem a sua ordem. Para a alma humana, os seus caminhos são misteriosos, perseguindo símbolos para a compreensão do universo.
Sebastian queria ser um homem bom e devotava-se às regras da religião que conhecia. A sua demanda era a perfeição e debatia-se com os conflitos que essa religião impunha: o desejo de poder e a humildade, o amor e a castidade, a sabedoria e a dúvida.
Sebastian rezava todas as noites e antes de dormir pedia para encontrar um sentido maior para iluminar o seu caminho. Ele desconhecia que rezava para si mesmo e para o divino que continha a sua alma. O sentido que buscava estava ali: ao alcance do seu coração, que vibrava eternamente. A sua demanda era o Amor, todos os outros valores eram apenas distrações para a sua velha alma. Sebastian não procurava amar, por medo, e, sobretudo, por acreditar no valor da castidade como forma de purificação. Ao mesmo tempo não conseguia acreditar que a vida e todas as suas formas fossem erradas e que a existência de todos os seres fosse um pecado. Sebastian não precisava pensar muito para saber a verdade dentro de si, mas contrariava os seus instintos ao pedir a um divino exterior a chave para viver. O divino exterior é abundante, todavia pouco eficiente quando não há intenção sincera. Já o divino interior é uma chama imensa e inextinguível.
Um dia, Sebastian viu Alix. Não a viu como ser físico, viu uma luz que pulsava, intermitente e nela surgiram imagens que continham símbolos: a serpente, a cruz, a rosa, a espada e o pentagrama. Encostou-se a um muro, sem ar, sem pensar, apenas a sentir a cadência do coração.
Alix era uma jovem inquieta, demasiado impaciente e curiosa para o que seria esperado dela. Não tinha beleza e não mantinha silêncio e seriedade. Essas características eram, naquele tempo e espaço, severamente repreendidas. Alix nesse dia não viu Sebastian, lutava para conseguir andar, respirar e imitar as irmãs.
Alix queria conhecer o mundo e tinha consciência que tão pouco sabia sobre a ordem natural das coisas. Como não sabia, só podia pressentir os mistérios e o oculto. Não sabia, também, dar um nome àquilo que era. Ela era detentora da sagrada chama, que é transmitida por via feminina desde o início dos tempos. Alix não tinha demandas, por esse motivo este relato se inicia com Sebastian, que vive na obscuridade e procura o Amor divino embora o renegue e não o entenda.
A demanda tem a sua ordem. Alix não precisa aprender, ela usa todos os sentidos, sonha com o passado, prevê o futuro e esconde a chama, ao nunca revelar os seus mistérios. Não sonha com o Amor, muito menos com a castidade que lhe é imposta, o poder dos homens é lhe vedado, a humildade é, afinal, uma condição que é exigida. Ela sonha com florestas densas, com árvores milenares que oscilam com o vento e a chuva das tempestades. É o mundo natural que a fascina e as suas orações são para o ar, a água, a terra, o fogo e para o ad aeternum, o espírito, que transmuta todos eles.
No segundo encontro é Alix que vê em Sebastian o seu verdadeiro rosto, o seu verdadeiro nome e a sua velha alma em espiral.
A demanda de Sebastian terminou e começou a aventura de Alix.

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