O mágico



No princípio havia a palavra e dela nasceu a luz e a treva. E ambas eram boas.

Houve uma altura em que Simão era apenas o mágico. Fazia desaparecer moedas, maçãs e pequenos objetos pelas janelas abertas.  Foi nessa altura que reparou nele a grande benfeitora. Assim lhe chamavam por dar pratos de comida e estudos a rapazinhos bonitos e bem comportados. Acontece que Simão era apenas bonito, uns olhos azuis claros, invulgarmente claros, num mar de crianças tisnadas, com olhos e pestanas de carvão. A benfeitora parou por segundos, incrédula, por ver aquela criança tão loira, de olhos tão azuis, qual personificação de um príncipe perdido. Simão dizia sempre que um olho era azul e o outro verde e o fixassem durante muito tempo ficavam ambos verdes. Era mentira. Como de resto quase tudo sobre si era mentira. Vivia com uma tia, exasperada por ter de o alimentar e criar, juntamente com os seus nove filhos esfomeados. Simão tinha-lhe ódio e era frequente deitar-lhe nas panelas aranhas e lacraus que se desfaziam lentamente no molho. Com um sorriso, não comia, dizia que não queria incomodar, comia na rua o que tinha roubado durante o dia, sozinho, a gozar o triunfo. Olhou para a benfeitora e pensou que podia ser o seu bilhete para a América, terra onde tudo era possível.

A senhora notável chamou por ele e fez-lhe muitas perguntas. Via-se que tinha experiência a inquirir. Tens fome? A primeira pergunta. A segunda, fora do padrão. Estás perdido? Costumava ser outra. És filho de quem?

Antes da tia havia a mãe. Não se lembrava de muito, sabia que tinha os olhos vermelhos de chorar. Os olhos eram também azuis, profundos e tristes. Não sabia nada de pai, havia um padrasto. Um homem sempre sujo que fazia muito barulho a se sentar e ainda mais para se levantar. Para beber e sentir melhor do sabor do vinho, estalava a língua. Naturalmente analfabeto, falava um dialeto próprio, exprimia-se por palavras entrecortadas de comentários, num diálogo consigo, exclamativo. Lembrou-se dele um dia distante, já no seminário, quando sentiu o queimar dos olhos de um dos padres.

Mas para já essa memória não lhe surgia, abriu-lhe muito os olhos e respondeu-lhe à pergunta que não fez.

- Sou órfão.

A senhora, que se chamava D. Brites, sorriu de triunfo. Simão inspirou-se nela como um modelo de comportamento, estudou-a longamente durante muitos anos.

- Meu filho, anda comigo.

Ele seguiu-a de olhos muito abertos, sem perceber para onde ia, não sabendo que nunca mais regressaria à casa da tia. Foi instalado, nos primeiros meses, no quarto das empregadas. Ficou fascinado como trabalhavam e riam ao mesmo tempo. Sempre pensara que trabalhar assim tanto devia ser uma maçada. Havia a Rita, a Joana e Conceição. Todas eram gordas, maciças e devotas. E alegres, incrivelmente alegres, contavam histórias como se fosse sempre a primeira vez.  

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