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Incógnito

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  O Estranho podia um dia ter aparecido na estrada.  Podia ter sido um pai, mas ficou incógnito.  "Não tem nome de pai" e com essa marca rasgou-se um destino. Pode-se imaginar que teria um bom nome,uma família, contas no banco,emprego,existência banal e terá morrido um dia,quando os batimentos terminaram. Tinha dois filhos que lhe prometeram entregar um dinheiro à filha nunca reconhecida. Eles vieram,provavelmente aterrorizados, à serra remota e deram com uma jovem que herdara desse pai, não o nome,  mas a natureza incógnita: a vergonha de ser.  Jazes na estrada encoberta, talvez deitado, caído, atropelado. Nunca chegaste, nem o som do teu nome. 

1908- José

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  Os olhos são pequenas galáxias, no infinito verde surge um sol laranja, quente e mágico.  São imanes as tuas galáxias. Olhos de gato ou serpente, olhos quase impossivelmente humanos, os teus. Quando te conheci eram tão tristes e já profundos no seu rosto. Não é possível esquecer esses olhos verdes, carregados de dor, arrependimento e segredos. Não tenho uma fotografia tua quando eras jovem, mas já vi uma mais antiga. Bigode triangular, cabelo liso e grosso levantado sobre a testa alta,olhos vibrantes, enormes, assustados. Há cabelos e testas iguais aos teus e olhos semelhantes ainda nos rostos dos teus descendentes. Um pouco menos verdes, menos laranjas, menos espantados. O meu filho não tem os teus olhos,tem olhos tão profundamente negros, macios, também eles iman de um brilho que nos conduz até à porta dourada onde vivem todos os sonhos possíveis.  Sinto o cheiro a fumo, fazes carvão e a fuligem dança à nossa volta. Quero dizer-te que tudo valeu a pena, que todas as t...

1876 - Maria

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  Podem os mortos ter uma voz? Voz tão distante que possa ser ouvida. A verdadeira pergunta não é sobre algum mistério da morte, pois esta não tem mistérios. Só os vivos mantêm os seus segredos. Podem os vivos ter uma voz? Quando as gargantas apertam pela dor e tantos pedaços de sonho e nada.No silêncio,  eles erguem-se e recordam. Eles, vivos e mortos, interligados pelo sangue, pelas raízes da mesma árvore ramificam, entrelaçam, numa sequência. Esqueceram-te. Consigo ver-te e sentir-te.As manhãs rompiam no horizonte e o dia que iniciava era mais um, semelhante ao anterior. No teu coração há um inimigo, perdeste a esperança. Há uma tristeza a que chamam loucura. Começou aos poucos, havia um medo de estar sozinha, quando percebeste que os gritos que davas por dentro começaram a sair pela boca. Não estranhaste, mas vias agora os outros a evitarem-te mais e mais. Ficar doida é não esconder o terror pelas encruzilhadas, o medo de boiar num mar incompreensível que é mundo às aves...

Alfio, o aprendiz de mago

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Palavra incomprensível, importante certamente pela insistência com que surge. Quem és? De onde vens? O que és?  Nome repetido num sonho e durante todos estes dias.  A frase completa é: Adeus, Alfio. Pode uma despedida doer, mesmo sem saber de quem ou de onde? Não é preciso responder, pois em mim a norma é brindar à dor como vinho nascido de uma terra de sol, seca e milagrosamente fértil. Alfio é o aprendiz do mago, de repente essa certeza. Nasceu o nome durante vários sonhos,acordando vezes sem conta para me lembrar. Adeus, Alfio. Esta noite para além do nome juntou-se outra frase, brindas à dor como vinho.  Então agora a história. Um poderoso mago, certo do seu enorme poder, deixava o seu laboratório nas mãos do jovem Alfio. As regras eram tão simples quanto impossíveis: não mexer em nada, não olhar para as chamas do oráculo enquanto alimentava o fogo sagrado, não inalar nem seguir o olhar no fumo do incenso.  O mago preparou-lhe todas as ferramentas para a sua inic...

Num dia de chuva

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 A humidade escorre de dentro e avança. Envolve a pele, os cabelos, as unhas e forma lentamente a bolha. Quando está frio cá fora, a humidade avança mais um pouco e a bolha espande.  A cada ciclo a pequena bolsa do iniciado ganha novas ferramentas. Antes de dormir é possível visualizar todos os objetos e revisitá-los a um a um. Cada um deles é um símbolo de lutas, humilhações ( ou sacrificios para os judaico-cristãos), fracassos e triunfos, todos emoldurados por igual.  O olhar, agora que aceitei cada um dos quadros, pode girar do centro da estante do alquimista para o lado onde lá há um mundo novo, claro, verde, seco. Um edifício branco, oblíquo, que oscila e segue o magnetismo da terra. Lá dentro, aquilo que sou não é bizarria, é Ciência. Não é obscurantismo, é um encontro de todas as partes reais. A voz recupera um som diferente, as mãos libertam-se e a chuva é, afinal, quente. 

Ao que não quero largar

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Este foi o ano em que vi o que não quero largar.  Entrar e sair de dentro do dragão, viagem interna ao abismo e voltar a respirar o ar.  Podem os disfarces de dragão ou de donzela convencer após ver o que não quero largar? Um brinde ao que pode libertar.