Sapatos enterrados


Os sapatos eram novos, imaculados, brancos, descalcei-os lentamente para entrar no templo. Arrumei-os do lado direito. Entrei sem sentir os pés no chão e a cabeça já separada do corpo, que visto de cima parece feito de pequenos triângulos e quadrados. As ideias dançam num céu de asas, fogo, sementes. Não há tempo nem espaço,  só o ser.

Quando saí, ainda com a garganta a sentir a estranheza de saliva, os olhos a luz baça, os pulmões o ar dos eucaliptos, os sapatos não estavam ali. Desapareceram. 

Como voltar pelas pedras?

Procurei os sapatos pelo jardim, o corpo foi-se tornando mais real, a cabeça voltou ao lugar, as emoções subiram do umbigo até ao centro dos olhos. 

Havia um homem baixo e sólido que tratava do jardim. Perguntei lhe se tinha visto uns sapatos brancos, novos, brilhantes, à porta do templo. Sorriu para mim ou seria através de mim? E respondeu que uma mulher os enterrou. 

Lancei-me para onde a terra tinha sido remexida e com as unhas e com a raiva renascida de dentro de um lugar novo, escavei, até encontrar um par de sapatos castanhos, imundos, torcidos.

Calcei-os com abismo dentro do peito. Porque me destruiram os sapatos à porta do templo? Porque remexeram nesta terra sagrada? Porque me perturbam, de forma deliberada? Porque consigo voar no céu de asas e fogo e não consigo voltar a calçar os meus sapatos como os deixei? 

Não estou satisfeita e tenho os dentes serrados. Pergunto ao homem que planta flores que mulher é essa, se a conhece, como é. 

Ele responde que era uma mulher que procurava a vingança e por esse motivo ele não a impediu, porque cada ação leva a uma reação. 

Voltei à entrada no templo, de pés sujos, de mão sujas, sedenta de respostas, de inquietação. Chamei pelo monge, que não veio. Sentei-me no primeiro degrau e  durante algum tempo olhei para os sapatos velhos e destruídos. Chorei por mim e quando me cansei, levantei-me e percorri as pedras com os sapatos que foram enterrados.

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