1876 - Maria

 



Podem os mortos ter uma voz? Voz tão distante que possa ser ouvida. A verdadeira pergunta não é sobre algum mistério da morte, pois esta não tem mistérios. Só os vivos mantêm os seus segredos. Podem os vivos ter uma voz? Quando as gargantas apertam pela dor e tantos pedaços de sonho e nada.No silêncio,  eles erguem-se e recordam. Eles, vivos e mortos, interligados pelo sangue, pelas raízes da mesma árvore ramificam, entrelaçam, numa sequência.

Esqueceram-te. Consigo ver-te e sentir-te.As manhãs rompiam no horizonte e o dia que iniciava era mais um, semelhante ao anterior. No teu coração há um inimigo, perdeste a esperança. Há uma tristeza a que chamam loucura. Começou aos poucos, havia um medo de estar sozinha, quando percebeste que os gritos que davas por dentro começaram a sair pela boca. Não estranhaste, mas vias agora os outros a evitarem-te mais e mais. Ficar doida é não esconder o terror pelas encruzilhadas, o medo de boiar num mar incompreensível que é mundo às avessas. Esse mundo é tão silencioso, torna a morte uma porta brilhante para alguma sala onde não exista tanta escuridão.

Há deceção e problemas que sabes que não podes resolver.  As tuas filhas e filho não te seguram a este mundo. Houve sempre um coração que sangra pela dor e o mundo fere-te, empurra-te como uma folha ao vento, leva-te para onde os outros decidem, a tua voz é silêncio. Acreditas que ficam melhor sem ti, é um embaraço viver assim, envergonhá-los, empatá-los, preocupá-los.

Mostras-me que também houve bebés nos teus braços e sabias acalmá-los com uma música, com as tuas mãos fazias pão, bolos e transformavas tudo em  branco, ordem e claridade, antes, quando ainda havia esperança e aceitação que o mundo é assim para todas as mulheres. A solidão e o esquecimento foram emboscadas ao teu destino.  

Queres pedir perdão. Eu perdoo-te, bisavó Maria da Conceição. Viveste os dias e da tua vida surgiram tantas outras vidas. És fonte e deste-me o teu coração, a tua emoção. Agradeço pela minha vida e pela tua vida, todos os dias, os de luz e os de cinza. Todos: desde o outubro do teu nascimento ao agosto da tua morte. Abraço-te, amo-te, querida avó. Não estás pendurada, nao tens peso, flutuas livre e leve como as flores flutuam no rio. 

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