Alfio, o aprendiz de mago


Palavra incomprensível, importante certamente pela insistência com que surge. Quem és? De onde vens? O que és? 

Nome repetido num sonho e durante todos estes dias. 

A frase completa é: Adeus, Alfio.

Pode uma despedida doer, mesmo sem saber de quem ou de onde? Não é preciso responder, pois em mim a norma é brindar à dor como vinho nascido de uma terra de sol, seca e milagrosamente fértil.

Alfio é o aprendiz do mago, de repente essa certeza. Nasceu o nome durante vários sonhos,acordando vezes sem conta para me lembrar. Adeus, Alfio. Esta noite para além do nome juntou-se outra frase, brindas à dor como vinho. 

Então agora a história.

Um poderoso mago, certo do seu enorme poder, deixava o seu laboratório nas mãos do jovem Alfio. As regras eram tão simples quanto impossíveis: não mexer em nada, não olhar para as chamas do oráculo enquanto alimentava o fogo sagrado, não inalar nem seguir o olhar no fumo do incenso. 

O mago preparou-lhe todas as ferramentas para a sua iniciação, só faltava ao jovem mago entender que a proibição era afinal um apelo ao seu espírito. Só se inicia aquele que escolhe entrar no universo da iniciação.  

Alfio não entendia como podia aprender magia, se o mago nada lhe ensinava e se raramente estava no gabinete de alquimia. Quando o via, colocava-lhe as mãos nos ombros e dizia palavras numa língua desconhecida. Trancava-se lá dentro e Alfio, a espreitar pelo buraco da fechadura, via pouco mais que nada. Horas depois partia, voltando a impôr as mesmas regras de sempre. 

O medo tomava conta de Alfio, não queria ser expulso, queria um dia ser um verdadeiro mago. Na sua alma foi crescendo  a impaciência e o descontentamento. Entrou no laboratório para alimentar o fogo, da maneira que o mago lhe tinha ensinado, de olhos fechados vê-se cada vez melhor. Porém,desta vez, abriu os olhos e viu pela primeira vez o fogo, lá dentro estava um cavalo branco que lhe disse:

- O Mago já sabe que quebraste as regras, agora virá atrás de ti e vai-te matar. Vem comigo, pega na pedra, no frasco de areia e num ramo de videira. 


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