1908- José

 



Os olhos são pequenas galáxias, no infinito verde surge um sol laranja, quente e mágico.  São imanes as tuas galáxias. Olhos de gato ou serpente, olhos quase impossivelmente humanos, os teus.

Quando te conheci eram tão tristes e já profundos no seu rosto. Não é possível esquecer esses olhos verdes, carregados de dor, arrependimento e segredos. Não tenho uma fotografia tua quando eras jovem, mas já vi uma mais antiga. Bigode triangular, cabelo liso e grosso levantado sobre a testa alta,olhos vibrantes, enormes, assustados. Há cabelos e testas iguais aos teus e olhos semelhantes ainda nos rostos dos teus descendentes. Um pouco menos verdes, menos laranjas, menos espantados. O meu filho não tem os teus olhos,tem olhos tão profundamente negros, macios, também eles iman de um brilho que nos conduz até à porta dourada onde vivem todos os sonhos possíveis. 

Sinto o cheiro a fumo, fazes carvão e a fuligem dança à nossa volta. Quero dizer-te que tudo valeu a pena, que todas as tuas dores, erros e mistérios acabaram. Sinto o cheiro a hortelá, a laranja, e quero dizer-te que a vida vence sempre. Grata pela tua vida e que oportunidade de te ter conhecido durante cinco anos e de tantas vezes sentir-te perto. Podes ir para a galáxia do paraíso, deixaste dentro de nós o teu coração. 

O bocadinho de verde que existe nos meus olhos é teu. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Os estivadores, de Ruy Belo